
As memórias de Portugal são das poucas coisas que escolhi escrever… porque acredito que só vale a pena escrever sobre aquilo que nasce do coração. Só o que nasce assim encontra caminho até ao coração do outro. É como o início de um amor: nasce num olhar, num instante que nos ultrapassa, numa experiência para a qual faltam sempre palavras. No fundo, só vale a pena escrever sobre aquilo que já não pode — que já não quer — permanecer em silêncio. Porque todo o amor no qual se arriscou entrar, saltar de corpo inteiro sem olhar para as dificuldades e as pedras no caminho, tem a possibilidade de se tornar uma experiência grande. Tudo aquilo em que investimos tudo tem a chance de se tornar grande. Apenas isso, na verdade: o que recebe tudo de nós. Os acontecimentos mais belos da minha vida nasceram sempre da coragem de tomar a decisão final, de dizer o “sim” definitivo. Desejo a todos — e a mim mesma — essa coragem de arriscar amar o mundo. Estes parágrafos são o registo de uma experiência íntima: a entrada numa quotidianidade inundada de luz. É o gesto de partilhar o pedaço de vida que Portugal me ofereceu.
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…Mudei‑me para Portugal para ficar. E fiquei, na verdade, quase três anos. Esse tempo de amizades bonitas e de estar comigo mesma fortaleceu‑me muito. Foi também um período de ultrapassar os meus próprios limites e de viver experiências que me fizeram voltar a acreditar nas minhas possibilidades. Embora às vezes difícil, nunca foi uma batalha — era como viver uma realidade que encontrei ali, com graça e com alegria. Trabalhei em alguns lugares, vivi num apartamento partilhado, estudei. Mas, acima de tudo, tinha a sensação de estar a viver, de finalmente recuperar a minha vida.
Hoje vejo esse período como um tempo muito poderoso — talvez o mais poderoso da minha vida — que não só me fortaleceu, mas também me deu identidade. Foi uma espécie de visão do que tudo pode ser e de quão feliz posso ser. Comecei a viver muitas coisas com que sonhava há muito tempo. … Não foi apenas um capítulo bonito — foi um vislumbre de uma qualidade interior, de quem posso ser quando me sinto livre. Parecia muito com os meus primeiros anos de infância, quando eu era calma e feliz ao mesmo tempo, exatamente como então.
Pela semelhança das experiências — embora tão diferentes na superfície, mas tão parecidas no núcleo — posso dizer que foram passos muito significativos na construção da minha identidade. …
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