MOMENTOS – Diário português (fragmentos)

Diário portuguêsLembranças escritas entre 2006 e 2008


Amizades

Quando chegámos ao restaurante, já era tarde. Muito tarde. O sol tinha-se posto há algum tempo e a estrada, desconhecida, tornara a condução difícil. Conheço o François de uma rua em Sintra: ele tinha perguntado pela estação de comboios e eu não soube responder — para mim, a cidade também era nova; também eu tinha acabado de chegar para passear. Fomos então tomar um café e acabámos por apanhar um autocarro para a vila seguinte. Assim começou uma linda amizade. Faz bem não fazer nada e deixar que a vida te abra as portas às suas surpresas. Agora, neste pequeno restaurante no meio de lugar nenhum, estamos a desfrutar o anoitecer. Comove-me a cordialidade com que o dono correu até casa para trazer tomates para a minha salada. Bebemos Gatão. Desde então, como uma espécie de elogio, uma lembrança daquela amizade, os gataos e os gatos tornaram‑se uma presença fixa na minha vida.

Em Portugal, aprendi a valorizar as amizades. São uma das formas mais puras de amor — generosas, altruístas. Não esperas nada da outra pessoa; estás simplesmente feliz e grato por poderem passar tempo juntos, por teres a oportunidade de acompanhar alguém por algum tempo.


Lisboa

A minha ligação a Lisboa — e, na verdade, a todo o Portugal — foi muito especial, única. Mesmo que não tenha sido num sentido físico, deu‑me vida. Quando é que vivemos de forma mais profunda, mais intensa, daquelas que nos preenchem por inteiro? Quando estamos felizmente enamorados. E quando tudo à nossa volta parece falar connosco, quando vemos com uma nitidez absoluta. É a única maneira verdadeira de olhar e ver: olhar com amor, apaixonados pela vida.

São momentos extraordinários, instantes em que somos nós mesmos, tal como somos na realidade mais profunda do nosso ser. Momentos de grandeza, de um voo sobre a cidade. Pequenos segundos em que, de repente, conseguimos ver a nossa alma. O corpo está apenas aqui para refletir o que acontece por dentro. Não são esses os momentos a que voltamos em busca de motivação? Os mais puros, os mais plenos, aqueles que ficam gravados na memória para sempre. Para a vida inteira.

É estranho: um sentimento profundo de paz — daquela paz intensa que abarca todos os seres — e, ao mesmo tempo, uma sensação de voo, de excitação constante. É um grito mudo, calmo e profundo, mas de uma intensidade que vem da fonte do nosso ser. Um sentimento que já não cabe dentro de nós, o instante de levantar voo porque não há outra opção. A consciência de que o corpo físico não consegue abraçar o que está a acontecer dentro de nós.

Apaixonei‑me por Portugal pela sua essência incrível. Pelo sentido de realização, pelos acréscimos, pela rudeza e pela simplicidade, pelo toque de eternidade. É este tempo passado aqui. É a profundidade dos sentimentos. São as pessoas que encontrei. É a sinceridade. É o regresso a uma casa que carrego dentro de mim. É o encontro comigo mesma. É a calma do mar, a vastidão do céu, as noites ao som do fado. É a padaria em frente à minha varanda, os vizinhos que vão buscar pãezinhos quentes em roupão. São as pastelarias sempre abertas, que surgem a cada passo. São estas pessoas, este país, a sua beleza intacta. São as chuvas no desértico Alentejo, Serpa à noite, as minhas relações mais profundas. É a fusão com a natureza, o cheiro da terra. É um tempo em que não se corre. É uma ressurreição. É tempo para viver.

Ao decidir mudar‑me para Portugal, não esperava que isso tivesse um impacto tão forte em mim — que mudaria, de alguma forma, a minha vida. Nunca imaginei que, muito tempo depois, eu ainda voltaria àquele período como a uma das fases mais belas da minha existência, encontrando nele força. Eu sabia — sentia instintivamente — que essa decisão era a escolha certa, aquela que abriria o caminho que eu devia seguir. Portugal fascinou‑me desde o primeiro momento em que o vi; na altura, não conseguia explicar exatamente porquê. Só mais tarde, durante a minha estadia em Lisboa, é que fui descobrindo todas as razões.


A margem do ser

E agora, novamente, o Tejo. Do outro lado, junto à vila do Seixal, vê‑se a base naval a surgir na margem e as altas chaminés da fábrica de cimento a rasgar o céu nublado. Cascos escuros, acastanhados, mastros estreitos e ágeis. Mais além estendem‑se os vastos alagados da foz do Tejo. Está quente, embora já seja setembro — aqui nunca faz realmente frio. Hoje o sol ainda está alto. Aproximamo‑nos lentamente do porto, e os edifícios começam a ganhar nitidez. Cresce lentamente diante de mim esta cidade que me coube viver — as suas pequenas praças e edifícios gastos pelo tempo, as escadas de madeira arrefecidas pelo inverno, a vista magnífica para o rio a partir das muitas esplanadas, e a ponte cuja imagem me acompanha sempre. As construções da estação fluvial crescem aos poucos, até que nos imergimos nelas; de repente, estamos de volta à cidade e tornamo‑nos novamente parte dela, como se nunca a tivéssemos deixado

Ao regressar à cidade, volto à realidade. As cidades são reais — podem ser tocadas. As cidades ligam‑se ao quotidiano. Nelas trabalha‑se, observa‑se a vida dos habitantes, passam‑se tardes em cafés junto ao rio, conversa‑se com as pessoas. Fora das cidades, bebe‑se da vastidão. Esse espaço — esse espaço além de Lisboa — é como uma oração.


Uma solidão cheia de vozes, de cheiros, de luzes e sombras, que acalma, refresca, faz crescer….um tempo só meu

Acabou de chegar a hora que chamo de “hora da solidão”. Portugal está, para mim, profundamente ligado a essa experiência: a solidão, a consciência, o encontro comigo mesma. Uma respiração distante de tudo. Um espaço para pensar, para se encantar com o que é comum. A solidão em Portugal nunca foi triste — foi como um eremitério, um lugar para meditar. Foi um tempo só meu. Portugal é um lugar afastado do mundo, onde o tempo não existe, onde tudo se aquieta. Onde tudo volta ao seu lugar.

Sagres cantava, Sines cantava, cantava a pedra branca da fortaleza costeira. Aqui, neste quase deserto escassamente povoado e varrido pelo vento, entre casas brancas espalhadas, queimadas pelo sol, nesta terra por vezes ascética, onde só há mar e céu, céu e mar e algumas rochas — gigantes de pedra — o espaço infiltra‑se involuntariamente na mente, oprime‑a, preenche‑a.

Aqui entra‑se, sem querer, na dimensão do infinito — que por momentos até assusta. É uma liberdade tão grande que se torna solidão. Aqui o vento varre os pensamentos; é tão alto que já não se ouve nada, nada mais. Daqui corro com o pensamento para o vazio. Daqui corro com a mente para algo que nem sei nomear. Fere os olhos o branco imperturbável da pedra da antiga fortaleza, pensativa e orgulhosa sobre as águas do oceano.


Uma memória. Onde o olhar se faz mar

Há uma memória em mim que não se desvanece — como a brisa do mar, que uma vez sentida, nunca mais se esquece. Essa vocação marítima, esse impulso para o oceano, senti‑o pela primeira vez durante a minha viagem a Portugal, há vários anos. Pode‑se encerrá‑lo numa imagem simples, mas de tal força simbólica que se gravou profundamente na minha consciência, transformando para sempre a forma como penso este país.

A vila era minúscula, talvez com alguns milhares de habitantes. Hoje, já não sei dizer onde exatamente desembarquei. E mesmo que me esforçasse muito — não sei se conseguiria voltar ao mesmo lugar. O que ficou foi a lembrança de uma estrada de areia serpenteando entre dunas, algures na Costa Prata. Uma paragem de autocarro solitária, um pouco afastada. Silêncio.

Depois, uma estrada asfaltada, ladeada por telhados baixos, casas humildes, estreitando‑se em perspetiva até se deter num pequeno muro de betão. E além dele — de repente, sem aviso — abria‑se a vastidão do Atlântico. Esse contraste entre os limites físicos e a liberdade líquida do horizonte. Como um eco, como um reflexo espelhado — essa paisagem reverbera na alma portuguesa. Aqui, o olhar segue outra direção. A Europa está distante, para lá da Espanha. Portugal não é europeu. Portugal é atlântico.

Aqui, inevitavelmente, o olhar lança‑se ao mar. Atravessa o Atlântico em direção à América longínqua, ou desliza pela estreita passagem marítima rumo à Terra Quente que se insinua além. Aqui, está‑se a sós com o mar. Do outro lado — quem sabe o quê. E deste lado, deste lado está o lar. O último recanto habitado do mundo. Aqui há silêncio. Aqui há paz.


A casa

Moro no alto, de onde se vê o Tejo e os barcos que o cruzam. Nos dias escaldantes de verão, o rugido dos aviões ensurdece — voam tão baixo pelas ruas estreitas que chegam a tapar o céu entre os telhados.

A nossa casa é um prédio comum, de estilo antigo, indistinto dos outros — com uma pequena varanda sobre um restaurante de esquina, escadas de madeira que rangem sob os pés e um corredor que, conforme a estação, se torna sufocantemente quente ou profundamente frio. Está cheio de vasos com flores cuidadas pela senhora Guida. Uma casa que poderia estar numa rua qualquer de uma cidadezinha distante.

O bairro é claro; os edifícios baixos deixam ver uma imensa extensão de céu. Os vizinhos estendem roupa nas varandas, secam sapatos ou espreitam por cima dos parapeitos com uma benevolente falta de curiosidade pelo que os rodeia. Em Lisboa, não se sente a cidade, não se sente a grandeza de uma metrópole multicultural. Cada bairro vive no seu ritmo lento e despreocupado — entre feiras matinais, portas de lojas que se abrem com estrondo, o cheiro do café fresco.

A casa tem um interior leve, com relevos no teto que, de alguma forma, não combinam com as paredes finas, janelas que não fecham bem, puxadores soltos e uma mesa azul de aglomerado. Tudo neste apartamento carrega o aroma do passado, como se o tempo tivesse parado. Já não encaixa nas condições atuais — e, mesmo assim, encontra o seu lugar.

Nunca amei nenhum país como este. Nunca senti uma gratidão tão profunda pelos momentos em que paro para tomar uma bica na cafetaria da esquina, ao lado da tabaqueira, e sinto uma proximidade com pessoas de quem nada sei — unidos simplesmente pelo facto de vivermos aqui juntos e de nos encontrarmos no café do senhor Alexandro.


Viajante

Como viajante, tem‑se apenas um nome; não se tem passado, não se tem futuro, não se existe no tempo — ou talvez seja o tempo que, então, pára. Para as pessoas que encontramos, existimos apenas no breve momento que partilhamos com elas. Vem‑se de algum lugar e, instantes depois, desaparece‑se de novo. Partilham‑se momentos com pessoas que se encontram apenas uma vez — e segue‑se caminho.

Com pessoas fechadas no seu próprio mundo, que apenas de má vontade entreabrem a porta da sua privacidade; com outras, curiosas de nós ou que nada perguntam, com quem trocamos algumas palavras sobre coisas óbvias, e ainda assim tão calorosas e sinceras. E talvez não importe realmente sobre o que falamos. Bebemos o mesmo café, saboreamos os mesmos bolinhos amarelos, partilhamos o mesmo espaço, respiramos o mesmo cheiro do mar.

Sou como vocês? São vocês como eu? Aqui e agora, neste mesmo tempo e lugar, estamos no mundo apenas uma vez. Destinados a encontrar‑nos — ou não.

É uma das mais belas realidades do mundo: esta proximidade que dura apenas alguns instantes. Este tempo que, sem querer e ainda assim conscientemente, partilhamos uns com os outros — um tempo que não nos pertence, que avança e nós com ele, que tentamos reter sem o conseguir reter de todo. Um tempo que escapa por entre os dedos estendidos — e perante o qual só nos resta sorrir.


A água

Portugal está todo voltado para o mar — para as ondas por vezes furiosas, para a superfície lisa noutras ocasiões. Aqui, a água é vida. Água pela qual se pode apaixonar, água da qual já não se consegue libertar, água que lança uma espécie de feitiço. Vê‑se isso até no estilo e na composição arquitetónica das cidades, vilas e aldeias — todas voltadas para o mar, conduzindo ao mar. Aqui está o centro, a forma histórica; aqui convergem todos os caminhos. A água está presente como um poderoso vizinho‑vigilante — o oceano. E está presente também nas margens dos rios: no Douro, no Tejo, para lá do Parque das Nações, nos arredores de Lisboa, sob as formas imponentes da ponte Vasco da Gama, onde o Trancão se encontra com o Tejo; no Sado, onde cresce o arroz; no Minho; e finalmente na chamada Veneza portuguesa — Aveiro, situada junto à sua ria, perdida entre pontes coloridas. A humidade traz consigo uma rajada forte vinda do oceano, lembrando que este é um reino sobre as águas — que são elas que aqui reinam, que não se brinca com elas, que são um elemento que salva, alimenta, mas que num instante também pode matar.

Quanta sabedoria profunda este mar transmite. O mar, sempre diferente. O mar, com conchas quebradiças entre os dedos e pedrinhas na margem. O mar, este mar com toda a sua força. O mar com a sua infinitude. O mar que inspira respeito. O mar com o qual conversar é tocar a eternidade. Num azulejo partido, vindo de algum lugar, ficou‑me na memória a inscrição: “Defende‑nos em terra e defende‑nos no mar.”

No mar, do qual somos parte. Eu poderia ficar aqui, deitada neste muro baixo, sobre pedras ainda aquecidas, sobre rochas salientes, olhando para o espaço que dá a devida dimensão a todas as coisas e assuntos deste mundo. Poderia correr para este mar, ou simplesmente entrar nele cada vez mais fundo, e depois voltar — voltar com cada onda. Poderia sentar‑me nas suas margens, absorvê‑lo em mim, ou apenas deixar escorrer entre os dedos a areia fina. Simplesmente ser — é o melhor que se pode fazer. Porque aqui, é‑se parte do mar.


A eterna saudade

Portugal é para mim um sinónimo de lar. Portugal é descanso, cheio de paz e silêncio. É um mundo encantado que desapareceu, pelo qual sinto saudades e que gostaria de devolver à existência — um mundo que faz parte de mim, que carrego comigo como uma lembrança da infância, de um mundo que não voltará, mas que por um momento me foi novamente devolvido.

É um mundo tal como foi para mim e como o recordo — e que tento reviver, tal como se tenta regressar pelas memórias ao lar, a algo que é conhecido e tão comum na sua simplicidade como o latido de um cão ao regressar de uma longa viagem, como o cheiro da relva recémcortada e a fumaça picante que sobe da fogueira e faz arder os olhos.



Podobne artykuły

Heute sehne ich mich nur noch nach meinem Himmel – aus dem Tagebuch eines Pilgers

Seit dem Camino … seitdem gibt esnur noch das Davor und dasDanach. „Heute sehne ich mich nur noch nach meinem Himmel – Aus dem Tagebuch...

Meditative Lyrik -ein Übersetzungsprojekt aus dem Polnischen (Fragmente)

"Marianische Gesänge" sowie "Ausgewählte Gedichte" - ein Album poetischer Meditationen über die Grundfragen des menschlichen Daseins: Leid, Tod, Einsamkeit und Schuld. Sie erscheinen aus...