Entre estações, cidades, memórias — uma viagem pela saudade, pelo tempo e pela identidade

Quatro ou cinco da tarde. Estação ferroviária numa pequena cidade polaca, no sul do país. O sol reflete nos trilhos. É o fim do verão de 2008. Nada lembra aqueles meses quentes de Lisboa, quando o ar vibra com o calor e os passeios e esplanadas brilham sob os raios intensos do sol. Sentamo-nos num banco — ou melhor, no final das escadas, já do lado de fora. Aqui e ali, os comboios assobiam. Ao nosso lado, algumas pessoas regressam provavelmente do trabalho, esperando o comboio que as levará de volta a casa. Diante dos meus olhos ainda vejo o bar A Margem, na beira-rio em Lisboa, e a multidão à espera do ferry que partirá em vinte minutos para a margem sul. Cerca de duas horas antes, o avião aterrou em Jasionka. Acabei de regressar. Uma sensação estranha, mas agradável. Voltei de mim para mim. Sinto-me jovem. Sinto-me livre. Sinto-me forte. Sinto-me apaixonada — por ninguém e nada em concreto, e ao mesmo tempo por tudo. Apaixonada pela vida. Pelas esplanadas ao sol, pela multidão à espera do comboio, pela areia da costa…

Lembro-me do dia em que parti — com alguma inquietação, mas certa de que sim, queria. Agora estou aqui novamente, toco nas pedras, olho os edifícios, respiro o ar desta pequena estação.

O comboio local finalmente entra vagarosamente nos trilhos, após meia hora de espera. Com aquele cheiro característico de ferrovia, cobrindo as pedras espalhadas sob os trilhos. Bancos vermelhos de couro sintético no compartimento aberto. Olho pela janela. À minha frente, no assento oposto, uma mulher de cerca de cinquenta anos observa-me intensamente. Sinto-me desconfortável, viro o rosto para o outro lado. Sinto a sua perplexidade… a sua confusão, surpresa. Eu sei… olha para mim daquele jeito que agora conheço tão bem. Olha como se eu fosse estranha, como se viesse de fora, como se de algum modo não pertencesse aqui. Como se fosse “estrangeira” no meu próprio país. Olha como se soubesse… Esse olhar que pergunta: és nossa? Ou deles? De onde és, afinal? Foi o mesmo olhar — ou semelhante — com que me olhavam em Lisboa, logo no início. Também tinha acabado de chegar. Mas já vivia lá há dois, três meses. As pessoas olhavam confusas, como se quisessem fazer-me a mesma pergunta: e tu? O que fazes aqui? Nada indelicado, apenas curiosidade, espanto. Não és nossa — olha-te ao espelho… ao teu rosto, aos teus olhos azuis, à tua pele…

Cada vez que volto à Polónia, sou tomada por um sentimento de saudade. Um sentimento de perda de algo muito importante. Volto com frequência, mas cada vez esse sentimento é… não sei… como se fosse sempre demais, demasiado tarde, demasiado breve. Não consigo explicar. Porque não quero que seja assim. Não assim. Cada vez fico com uma sensação de falta, de “não ter chegado”. Porque não chego. Mas talvez seja eu. A falta de mim… aqui. E é precisamente por isso que não posso voltar a Portugal. Porque não volto a Portugal. É algo que corre nas minhas veias. É demais para ser apenas assim. Demasiado. Demasiado profundo. Demasiado intenso. Tenho saudades e não quero matar essa saudade, não. Quero que ela permaneça. Sem ela, perco algo significativo, algo único. Já é parte da minha identidade, de mim mesma.

Outro verão, muitos anos depois. Maio. Está realmente quente. E abafado. A humidade sobe do Tejo. É difícil… esse algo… dentro de mim. Não sei exatamente. As mesmas ruas, os mesmos edifícios de antes, os passeios que eu adorava. Hoje o sol está encoberto. E os passeios também brilham, sim, mas de outra forma. Algo mudou. E isso dói. Dói porque… porque antes esta era a minha cidade… e agora não a reconheço. Sim, reconheço os edifícios, as ruas, os cafés, sim. Mas parece que estou a correr atrás de um sonho perdido. Será assim tão difícil aceitar que o mundo muda? Nunca voltes aos lugares que amaste profundamente. Que fizeram o teu coração pulsar. Tal como não se volta aos grandes amores. Porque não se pode voltar. Não se consegue voltar. É realmente impossível. O amor é uma coisa estranha. Ou ficas ou partes. Se partes, partiste — fim. Já não podes voltar às mesmas ruas, às mesmas memórias, às mesmas circunstâncias. A saudade mata, mas mais do que a saudade, mata a realidade que encontras ao regressar. É uma verdadeira ferida no coração. Tudo mudou. É outro mundo. Sim, pode haver reencontro. Mas para se conhecer de novo. Tal como somos hoje. Com estas experiências, com tudo o que aconteceu entretanto. Se ambos quiserem. O mundo que deixaste ficou… lá fora. Fora de ti. E tu — fora dele.

Portugal deu-me, tudo o que se pode dar. E ainda mais. Ofereceu-me o impossível: segurança e liberdade ao mesmo tempo. Devolveu-me a mim mesma — a mim, cansada da vida no Ocidente, cansada dos seus costumes e hábitos — a mim, encheu-me de força. De forma leve e corajosa, ensinou-me a olhar para o futuro. Cada dia significava ir ao encontro do que compunha os meus dias. E mesmo hoje, às vezes, na cidade onde me coube viver, adoro começar o dia numa esplanada. Nesses momentos, sentindo o vento frio no rosto, o frescor do dia que começa, volto com a memória às minhas casas… uma na Polónia, outra em Portugal.

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