O relojoeiro é alguém que trabalha com o tempo, querido — disse uma voz rouca e um pouco distraída de uma menina. — Conta os minutos. E depois coloca-os no lugar certo. Às vezes faz com que parem. Move o ponteiro das horas. E depois deixa tudo voltar a fluir. Nunca se sabe quando decide parar os instantes e o que acontece nesse tempo de vazio — continuou a explicar.
O gato olhava para ela com interesse, sem se mover. Com expressão pensativa e perdida, a menina apoiava-se na ombreira de uma velha porta no fim da rua. Os seus olhos, brilhando de excitação, estavam tão fixos na vitrine que nem a ternura do gato, nem a voz feminina chamando-a para casa conseguiam arrancá-la daquela fascinação que sentia pelos pêndulos e pelos mecanismos complexos atrás do vidro. Engrenagens, rodas dentadas, umas e outras, ligadas de forma intricada e inexplicável, conversavam entre si, saltavam e recuavam de repente. O que poderiam sentir?
Muitos anos depois, já mulher adulta, a menina nunca perdeu o fascínio pelo mundo encantado dos relógios. Para ela, não eram apenas sinais simples da passagem do tempo — tinham, como antes, uma ligação mística com aquele outro mundo, o mundo do relojoeiro, que incessantemente colocava os minutos invisíveis no seu lugar.
O tempo do velho
Fechando os olhos, ainda o vejo lá. A imagem está um pouco enevoada, difusa. O velho costumava afastar-se do mundo. Passava tanto tempo no seu deserto. Tantas horas. Na sua lojinha, na cave, consertando coisas…
Habitava nele uma solidão luminosa. Daquelas que não se pode responder, que não se pode saciar. Mas acima de tudo, era um tempo luminoso, uma hora sagrada, tempo de estar só.
Surpreendido pelo nosso tempo, o das crianças e das brincadeiras, sorria suavemente… com aquele seu olhar calmo, gentil e sereno, observava-nos por um momento, para depois voltar às suas tarefas. De vez em quando aparecia um cliente, trazia algum aparelho para reparar. Mas na maioria das vezes, o relojoeiro estava só. Passava o tempo com os seus pensamentos, com a sua alma, com o seu coração, com o seu ser. Com os seus relógios e o seu tique-taque claro e tranquilo.
Neste mundo cheio de vida, de ruídos da rua, de gritos de crianças — o relojoeiro estava nele, mas também fora dele. Como se aquela paisagem, aquele ambiente que o rodeava, fosse apenas uma miragem difusa. Como se pertencesse ao outro lado da realidade. Como se fosse lá que ele realmente morasse. Lá, do outro lado. Como se tudo aquilo que chamamos de vida, que podemos sentir, tocar, experimentar, fosse apenas uma imagem, um reflexo fraco de uma realidade demasiado grande para ser descrita.
Saudade
Voltava depois ao seu banco diante da porta com um sorriso — um pouco ausente, mas cheio de paz, uma paz que o mundo nunca soube dar. Hoje compreendo-o plenamente. Como viver sem esses momentos de paz da alma, sem esse “não fazer” nada? Como viver? Essa saudade preenchia-me até os limites do meu ser. Essas horas pelas quais tanto ansiava… Esse ser eremita em meio ao barulho, aos gritos, à pressa do mundo.
Às vezes parecia-me que o relojoeiro vivia em ambas as realidades. Naqueles tempos, eu olhava para ele com os olhos de uma menina de oito ou nove anos, que não compreende, mas sente, observa fascinada e anseia. Um enorme magnetismo, um desejo intenso por esse tipo de vida tomava conta de mim nesses momentos. Poder, mesmo que por um instante, roubar um momento e mergulhar — mergulhar a alma — nesse mundo tão diferente e tão cativante.
Era essa saudade que me habitava há muito. Era essa eternidade pela qual, desde sempre, desde que me lembro, ansiava profundamente… E nunca compreendi bem por que deveria desejar outra coisa.
A cortina e o tempo
O meu olhar voltou-se para a cortina. O quarto está envolto em penumbra. A cortina laranja é feita de um tecido áspero, um pouco leve — daqueles semi-transparentes, que deixam entrar a luz da rua e foram mal costurados.
As sombras dos carros que passam na rua refletem-se nela e dançam a sua dança enigmática, beijando vez após vez os vincos e saliências do tecido coberto de sinais escuros. Formas distorcidas e deformadas espalham-se pelos móveis e pelas paredes. Está ficando tarde — não sei se é uma ou duas da manhã, talvez meia-noite. Não sei ao certo. Não há relógios, e mesmo que houvesse, a escuridão não permitiria ver nada.
Penso naqueles grandes relógios antigos, de pé nos cantos do quarto, marcando a hora com seu som profundo e prolongado — um som que se perdia na escuridão e no vazio do interior da residência… que ainda ressoava por alguns segundos e cujo eco se refletia inúmeras vezes no corpo. Penso no relojoeiro. O tempo — coisa estranha. Uma dimensão que não se vê, mas que se sente. Como os cães, que não veem cores — para eles o mundo é preto e branco. E no entanto, as cores existem. Assim como o tempo. Uma dimensão que durante séculos, até à invenção do relógio, era medida pelo movimento das sombras ou pelos grãos de areia que se moviam na ampulheta. Ou nem sequer era sentida. Existem lugares, existem momentos livres do tempo.
Ouço o ruído da rua, vejo sombras na parede. Deveria adormecer, mas não consigo. Escuto esse ruído, os sons da rua do outro lado da cortina, que me separa do mundo noturno da estrada.
E aqui, essa dança de sombras, que comove, fascina, hipnotiza, atrai irresistivelmente o meu olhar. Respiro a sua intensidade, a sua regularidade. Por um instante, até me parece que sou parte dela. Perco-me nos sons dos caminhões, nas sombras que deslizam pelo teto, que se movem deformadas pelas paredes, pela tonalidade levemente castanha dos móveis. Ainda estou aqui? Sim, sei — ainda sei o que faço no mundo real… ou melhor, o que costumava fazer… Toda a vida procuramos o nosso verdadeiro “eu”, tentando dar-lhe também uma forma exterior… Mas nesses momentos — nesses instantes de fuga do mundo, sei apenas que volto a dançar com as sombras na parede…
Hoje, como antigamente — nos tempos da infância, quando costumava observar as sombras, e que lembro tão bem como alguns dos momentos mais mágicos daquele tempo — também hoje há muitos momentos na minha vida em que estou fora. Demasiado, talvez. Como se ainda não tivesse nascido por completo. Como se não tivesse descido totalmente à terra. Como se não quisesse descer.
Preciso desse tempo só para mim. Da solidão cheia de vozes, cheiros, luzes e sombras — que acalma, refresca, permite crescer. É essa mesma solidão tranquila que sinto ao observar as nuvens que deslizam pelo céu ou ao olhar os pássaros pousados nos telhados vermelhos. Momentos de felicidade silenciosa.