“Acabo de pronunciar o teu nome, para recomeçar o sonho.
Pobre de mim, nunca se ve duas vezes a mesma miragem.”
– Vinte, vinte e poucas?… Sim, mais ou menos, acho que sim…
– Eu termino a minha lista com trinta e poucas…
– Ora veja, mas o senhor já vive há mais tempo nesta terra…
O passageiro à minha frente parece ser da mesma história que eu… Comboio na rota Berlim–Varsóvia. Março lá fora — frio, cortante, quase esquecido. Ainda envolta no casaco recém-comprado, surpreendida pelo caminho. Um daqueles encontros casuais em que a conversa flui sozinha, e eu nem percebo quando as horas passam… Os temas surgem por si só: viagens, etimologia, literatura, carros, destino… Falo dos estudos, do amor profundo por Portugal, do tempo passado na Alemanha, da infância na Polónia, da Áustria, da América… da família em França… e dos estudos em Espanha, do doutoramento iniciado… Das andanças pelo mundo… dos apartamentos, residências estudantis, albergues, dos cargos invejáveis e dos trabalhos menores que aceitei por necessidade… Da emigração que me atingiu como uma bofetada. E ainda por cima, imerecida.
Vinte casas, vinte lugares, vinte espaços — cada um, por um instante, lar. Ou quase. Na verdade, daria para várias biografias. Histórias belas. Histórias difíceis. Histórias — apenas histórias. A vida com todas as suas curvas, saídas, becos sem saída…Hoje ainda ouço as palavras: “Não faz mal, criança, não faz mal. É só a vida. Às vezes tem que ser difícil, mas lembra-te que sempre, apesar de tudo, é bela. E tu podes chegar lá.”
A Polónia, tantos anos depois…
Já não é o país que deixei aos 23 anos. Hoje é outro lugar. Um mundo perdido que, de certa forma, procurei em Portugal — a Polónia da minha infância, daqueles momentos… Claro, difícil, sem dúvida, mas cheia de calor humano. Talvez por isso nunca consegui interessar-me por aquela vida confortável — essa vida que tantos, vindos do Leste, abraçaram com esperança e saudade. Eu, não. Nunca sonhei com essa facilidade. Nunca me passou pela cabeça ansiar por essa proposta pela qual outros dariam tudo…
Nas minhas veias e nas células do meu corpo estão tatuadas as memórias de uma vida difícil, mas feliz — uma vida que desejei para mim, com a qual me identificava. Como Adão expulso do Éden, procurei o paraíso perdido. Após décadas inteiras, essa saudade chama-te pelo nome. É um chamamento difícil, diferente, não óbvio. Uma beleza infinita gravada no fundo do coração — uma beleza que parecia perdida. Memórias de um passado inocente. Histórias de lugares. Das suas pessoas. Histórias de saudade. Saudade do inatingível.
O que é a pátria? O que significa? É uma identidade que se recebe para o caminho, ou aquela que se constrói depois? Aquela que cresce dentro de ti — através dos valores escolhidos, das experiências, das reflexões? É um jardim. Uma árvore que lança raízes e estende ramos — mas onde floresce?
Com o que associamos a pátria? Uma palavra que, para os habitantes das grandes cidades, que de certa forma se assemelham umas às outras, em tempos de globalização generalizada, parece estar a perder lentamente o seu significado. Com o que associamos a pertença a uma nação? E por que precisamente a essa?
E como responder a essa pergunta depois de tantos anos passados noutros lugares, em lugares que costumava chamar de casa… e que, de certa forma, também o eram? Algo é dado, mas será também aceite? Até que ponto? Então, o que significa essa palavrinha “de”? Essa palavrinha — “de” — o que quer dizer, afinal? Pertenço? Venho de? Há uma diferença. E grande. Pode-se vir de um lugar, mas já não pertencer a ele. Pode-se pertencer sem ter vindo de lá. Durante muito tempo, dizia que sou da Polónia. Uma identidade que, depois de tantos anos, já não é tão evidente… Que precisa ser redescoberta. Precisa? Acho que sim. Tal como todas as grandes perguntas da vida, também esta precisa de uma resposta. Um dia, é preciso confrontar-se com isso, decidir: quero ou não quero? No fim das contas, é disso que se trata. De um sim ou não claro e consciente.
A não ser que exista uma terceira via…
Estudei a história de Portugal. Penso que até com mais consciência do que em tempos a história da Polónia. Queremos saber porque amamos. Mas não se pode responder porquê. Existem respostas para essa pergunta? Sabemos, afinal, por que razão amamos algo ou alguém? É um fio invisível que liga almas, lugares, pessoas… Acontece. Ninguém sabe porquê. Por uma razão profunda, acredito — mas talvez escondida durante algum tempo, talvez ainda escondida, talvez para sempre.
Então, o que é a pátria, o que é o lar? Diante dos olhos vejo palacetes lindíssimos — embora um pouco decadentes — residências em Sintra, em Coimbra, em Aveiro. Vejo casinhas pequenas em Ericeira e Nazaré. Lembro-me das casas encantadoras na vila de Ovar, onde pela primeira vez pensei: quero ficar aqui. Nada de espetacular, não. A simplicidade da vida. Talvez tenha sido isso que mais tocou a minha alma — sedenta de normalidade, de pureza, de quotidianidade. A pátria é feita de imagens — reais ou sonhadas — que nos perseguem com ternura. São lugares que nos habitam, mesmo quando já não sabemos onde estamos. É tudo aquilo que sempre desejámos, essa eterna saudade. Irresolúvel, porque impossível de realizar nesta vida. Porque a vida inteira é breve demais para abarcar esse sonho.
E mesmo assim, ele nos foi dado — como promessa, como enigma, como destino.